Sua Equipe de Vendas é Paga para Vender ou para Dar Descontos?

Vamos ser diretos: sua equipe de vendas faz aquilo pelo que é paga para fazer. E, na maioria das lojas de médio porte, comissões e bônus estão atrelados a uma única métrica: o volume. O faturamento.

Parece lógico. Quanto mais vende, mais ganha. Mas há um problema: quando a remuneração prioriza só o “quanto” se vende, e não o “como” se vende, você está, na prática, pagando para sua equipe dar descontos.

O sistema de incentivos é o motor do comportamento. Se a pessoa vendedora percebe que bate meta mais rápido fechando R$ 1 milhão com 15%–20% de desconto do que defendendo R$ 800–900 mil com margem cheia, qual caminho ela escolhe sob pressão? O foco sai da defesa do valor e vai para acelerar o “sim”. E o atalho mais rápido para o “sim” é o desconto.

Além disso, a análise da concorrência costuma ser rasa. Observa-se o preço do vizinho e ignora-se custo total para o cliente, serviço, prazo, garantia, mix e posicionamento. A pergunta que ecoa é: “por quanto o concorrente está vendendo?”, quando deveria ser: “qual é o custo total da alternativa para este cliente e como reduzimos esse custo?”

Seu plano de remuneração precisa premiar venda inteligente, preservação de margem e construção de carteira valiosa — não o volume a qualquer preço.

Como a remuneração errada destrói a margem

  • Comissão só sobre faturamento: premia desconto agressivo e mix de baixa contribuição.
  • Bônus trimestral por meta de receita: concentra concessões no fim do período.
  • Falta de trilhos de desconto por alçada: cada pessoa decide o que conceder, sem contrapartida.
  • Metas sem guarda‑chuva de margem: time otimiza volume e esvazia o lucro.

Exemplos próximos da realidade (~R$ 5 milhões/ano)

1) Moda feminina multimarcas (2 lojas de rua)

Cenário: comissão de 2,5% sobre faturamento. No fim do mês, libera‑se 10% off em coleção atual para “virar” estoque.

Efeito: margem bruta cai de 48% para 41%. Para manter o mesmo lucro, seria preciso crescer ~17% em volume — sem tráfego nem estoque para isso.

Ajuste de incentivo: comissão 1,2% sobre faturamento + 0,8% sobre margem de contribuição da venda.

Trilhos: vendedora até 3% de desconto, gerente até 5%, sempre com contrapartida registrada. Resultado típico em 60 dias: desconto médio cai para ~3,5% e ticket composto com 1 peça de margem alta compensa a concessão.

2) Autopeças (balcão + oficinas parceiras)

Cenário: “preço da internet” puxa pastilhas premium 8% abaixo da tabela. Comissão só por faturamento.

Efeito: categoria perde 3 p.p. de margem e a cesta complementar não acompanha.

Ajuste de incentivo: 50% da comissão atrelada à margem de contribuição da cesta e a metas de mix (percentual de vendas com itens A e B).

Trilhos: até 2% de desconto sem combo; 3% com combo de itens de margem alta.

Resultado: desconto médio ~2% e margem da cesta +2–3 p.p.

3) Materiais de construção (2 filiais)

Cenário: bônus trimestral por faturamento bruto. Última semana vira “feirão”. Descontos de 7% em porcelanato 60×60 para fechar meta.

Efeito: necessidade de +12% de volume para empatar lucro, sem capacidade de entrega/instalação.

Ajuste de incentivo: bônus híbrido com gatilho de margem mínima por categoria e metas de realização de preço.

Concessão atrelada a contrapartida: combo com niveladores e espaçadores, ou prazo de entrega flex.

Resultado: recuperação da margem e aumento do ticket por obra.

Como redesenhar o plano de remuneração sem perder o time

Comissão híbrida: parte sobre margem de contribuição, parte sobre metas de mix e satisfação do cliente. Volume entra, mas não reina.

Gatilhos de elegibilidade: só recebe bônus quem entrega margem mínima
por categoria e mantém desconto médio dentro do trilho.

Trilhos de desconto por alçada e contrapartida: vendedor até 3%, gerente até 5%. Concessão sempre trocada por algo: volume, cadastro, referência pública, contrato de recompra, exclusividade de linha.

Score de proposta saudável: pontue cada proposta com base em realização de preço, mix e contrapartida. Use o score no feedback e na remuneração variável.

Métricas para governar incentivos

  • Realização de preço vs. tabela por pessoa vendedora e por categoria.
    Desconto médio e % de propostas com contrapartida.
  • Margem de contribuição por atendimento e por canal.
  • Mix de margem: participação de itens A/B vs. C em cada venda.
  • “Custo da meta”: mídia extra, logística acelerada, retrabalho no fechamento
    do período.

Roteiro de conversa com o time

1. Valor antes de preço: problema do cliente em reais, caso rápido, garantia objetiva.

2. Preço ancorado no valor: só depois da narrativa econômica.

3. Concessão condicionada: se houver desconto, qual a troca?

4. Registro no sistema: motivo, trilho e contrapartida.

5. Feedback semanal: vitórias com preço cheio e boas práticas replicáveis.